quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O HOMEM DO CÉREBRO DE OURO

À Senhora que pede histórias alegres.

Lendo sua carta, senhora, tive uma espécie de remorso. Eu me censurei pela cor um pouco meio-luto de minhas historinhas, e havia prometido a mim mesmo lhe oferecer hoje alguma coisa alegre, loucamente alegre.
Por que estaria eu triste, enfim? Eu vivo a mil léguas das brumas parisienses, sobre uma colina luminosa, no país dos tamborins e do vinho muscat. Em volta da minha casa só existe sol e música, tenho orquestras de cul-blancs, corais de mésanges, de manhã, os courlis que fazem "curli, curli!", ao meio-dia as cigarras, em seguida os pastores que tocam flautim, e as belas meninas morenas que se ouvem rir nas vinhas... Na verdade, o lugar foi mal escolhido para ficar deprimido, eu deveria enviar às senhoras poemas cor-de-rosa e cestos cheios de contos de amor.
Mas não! Estou ainda perto demais de Paris. Todo dia, até as minhas raízes, ela me envia respingos de sua tristeza! Nesse exato momento em que escrevo estas linhas, acabo de saber da morte do pobre Charles Bárbara, e meu moinho está de luto. Adeus passarinhos e cigarras! Eu não tenho mais alegrias no coração... Eis porque, senhora, ao invés do bonito conto alegre que prometi lhe fazer, a senhora só terá hoje mais uma lenda melancólica.


Era uma vez um homem que tinha um cérebro de ouro, sim, senhora, um cérebro de ouro. Quando ele veio ao mundo, os médicos pensavam que aquela criança não viveria, tamanha era sua cabeça e tão desproporcional era seu cérebro. Ele viveu, no entanto, e cresceu ao sol como uma linda muda de oliveira, só que sua cabeça grande sempre o desiquilibrava, e dava pena vê-lo chocar-se com os móveis ao caminhar... Ele caía com freqüencia. Um dia, ele rolou do alto de uma escadaria e acabou batendo a testa contra um degrau de mármore, onde seu crânio soou como um lingote. Pensaram que ele havia morrido, mas, ao levantarem-no, encontraram apenas um leve ferimento, com duas ou três gotinhas de ouro coagulado em seus cabelos louros. Foi assim que os pais souberam que o menino tinha um cérebro de ouro.
O assunto foi mantido em sigilo, o pobrezinho não desconfiava de nada. De vez em quando, ele perguntava por que não o deixavam mais correr em frente a casa com os moleques da rua.
"Poderiam roubá-lo, meu lindo tesouro", lhe respondia a mãe... Então o menino tinha muito medo de ser roubado, ele voltava a brincar sozinho, sem dizer nada, e se deslocava pesadamente de uma sala para outra.
Somente aos dezoito anos seus pais lhe revelaram o dom monstruoso que ele herdara do destino, e como eles o haviam criado e alimentado até então, pediram-lhe em troca um pouco de seu ouro. A criança não hesitou, no mesmo instante, - como? Por que meios? A lenda não o diz, - ele arrancou do crânio um pedaço de ouro maciço, um pedaço do tamanho de uma noz, e o jogou orgulhosamente sobre o colo de sua mãe... Em seguida, ofuscado pelas riquezas que levava em sua própria cabeça, louco de desejos, ébrio de poder, deixou a casa paterna e foi pelo mundo desperdiçando seu tesouro.
Do jeito que ele levava a vida, realmente, e semeando ouro sem contar, dava para pensar que seu cérebro era inesgotável... Ele se esgotava, no entanto, e era possível ver aos poucos seus olhos se apagarem, suas bochechas se tornarem mais cavadas. Um dia, enfim, na manhã seguinte a uma noitada louca, o infeliz, tendo ficado sozinho em meio aos destroços da festança e aos lustres que empalideciam, assustou-se com o enorme buraco que ele já havia feito em seu lingote, era hora de parar.
Desde então, foi uma nova existência. O homem do cérebro de outro foi viver isolado, trabalhando com suas próprias mãos, desconfiado e temeroso como um avaro, fugindo das tentações, tentando ele próprio esquecer essas fatais riquezas nas quais ele não queria mais tocar... Por infelicidade, um amigo o havia seguido em sua solidão e esse amigo conhecia seu segredo.
Uma noite, o pobre homem acordou sobressaltado por uma dor de cabeça, uma terrível dor na cabeça, ele se ergueu estonteado e viu através de um raio de luar o amigo fugindo com alguma coisa escondida sob o casaco. Um pouco mais de cérebro que lhe era roubado!
Algum tempo mais tarde, o homem do cerebro de ouro apaixonou-se, e dessa vez tudo se acabou... Ele amava do fundo de sua alma uma mulher lourinha, que o amava também, mas que preferia os pompons, as plumas brancas e os belos enfeites dourados batendo sobre as botinas.
Entre as mãos dessa graciosa criatura - metade pássaro, metade boneca, - era um prazer ver as moedinhas de ouro derreterem-se. Ela tinha todos os caprichos, e ele nunca sabia lhe dizer não, inclusive, para poupar sua dor, escondeu-lhe até o fim o triste segredo de sua fortuna.
"Então nós somos bem ricos?" dizia ela. O pobre homem respondia "Ah, sim... bem ricos!" e sorria com amor ao pequeno pássaro azul que lhe comia o crânio inocentemente. Algumas vezes, entretando, o medo o tomava, ele tinha vontade de ser avaro, mas então a pequena mulher vinha até ele saltitando e lhe dizendo "Meu marido, que és tão rico, compra-me alguma coisa bem cara" e ele lhe comprava alguma coisa bem cara.
Isso durou dois anos, depois, uma manhã, a pequena mulher morreu, sem que se soubesse por quê, como um passarinho... O tesouro chegava ao fim, com o que lhe restava, o viúvo mandou fazer para a sua cara morta um belo enterro. Sino badalando, pesadas carruagens atapetadas de negro, cavalos empenachados, gotas de prata nos veludos, nada lhe parecia suficientemente belo. Que lhe importava agora seu ouro? Ele o distribuiu à igreja, aos carregadores, às vendedoras de flores secas, ele deu ouro em todo lugar, sem negociar... assim, ao sair do cemitério não lhe restava quase mais nada desse cérebro maravilhoso, apenas alguns fragmentos nas paredes do crânio.
Então ele foi visto vagando pelas ruas, com um aspecto ausente, as mãos para frente, tropeçando como um bêbado. De noitinha, na hora em que os bazares se iluminam, ele parou diante de uma larga vitrine, na qual um monte de tecidos e ornamentos reluziam sob as luzes, e ficou ali bastante tempo olhando duas botinas de cetim azul bordadas com penugem de cisne. "Conheço alguém a quem essas botinas agradarão", e disse a si próprio sorrindo, e, esquecendo-se de que sua pequena mulher já havia morrido, entrou na loja para comprá-las.
Do fundo da loja, a vendedora ouviu um enorme grito, ela acudiu e recuou ao ver um homem em pé, encostado no balcão, olhando-a dolorosamente com um ar estúpido. Ele segurava com uma das mãos as botinas azuis com bordados de cisne e mostrava a outra mão ensangüentada, com raspas de ouro sob a ponta das unhas.

Esta é, senhora, a lenda do homem do cérebro de ouro. Embora ela se pareça com um conto fantástico, esta lenda é verdadeira do começo ao fim. Existem no mundo alguns pobres coitados que estão condenados a viver de seu cérebro e pagam em belo ouro fino, com seu miolo e sua subtância, as mínimas coisas da vida. Para eles, todo dia é uma dor...


(Alphonse Daudet - séc. XIX)